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Harmonização facial ou distorção social?

Revendo as matérias e os temas que compartilhamos nas últimas semanas, não tenho como falar da tal “harmonização facial” sem conectar com eles: autoestima, amor-próprio, envelhecer com dignidade, maturidade, abusos às mulheres, saúde integrativa e suas terapias. Está tudo conectado e nossa cultura e sociedade têm um peso grande em toda essa relação.

Faço um convite para você ler tais matérias e a refletir sobre a sua relação com o espelho. E, para isso, trago algumas experiências pessoais e minhas próprias reflexões sobre a loucura e os abusos cometidos pela indústria de beleza na venda de rostos jovens e corpos perfeitos às custas de muito dinheiro, tempo e principalmente, de nossa autoestima.

Sim, é difícil ser impactada diariamente, incessantemente, por peles e corpos perfeitos e maravilhosos de atrizes e influencers. Difícil resistir aos filtros que removem olheiras, amenizam as linhas de expressão, deixam a pele luminosa, lisa, bronzeada, saudável, com cílios enormes e lindos.

É fácil entender a angústia de se olhar no espelho e estar longe de tudo aquilo. É fácil entender o agendamento à dermatologista, à esteticista e atuais dentistas que deixaram a odontologia por procedimentos bem mais rentáveis. Mas atenção. Temos que estar bem seguras de nós mesmas e saber o que queremos com tudo isso.

A primeira reflexão: com quem você está se comparando? Com artistas, filtros e retoques de imagens ou com você mesma?

 

Comparações desastrosas que mexem com a nossa autoestima

Vou resgatar um pouquinho a autoestima, porque para mim, é por onde tudo começa. Se nos compararmos com artistas que fazem milhões de tratamentos há anos ou com quem tem um estilo de vida e hábitos completamente diferentes, com características e estrutura física completamente diferentes de nós, como vamos nos enxergar e nos encaixar ali sem um mínimo de frustração?

Vamos a um exemplo bem prático. Acho a Camila Espinosa lindíssima. Aquela pele, o corpo sarado. Tudo lindo e perfeito. Pois bem, ela era modelo, vivia da imagem, começou tratamentos preventivos há uns 15 anos com a mesma profissional. Nunca fumou, acredito que não seja do álcool, alimenta-se perfeita e saudavelmente, não ingere açúcar, protege-se do sol, faz exercícios físicos regularmente há anos, com personal, etc.

Já eu, fui parida na praia. Meu lance era ficar mais bronzeada (ou queimada!) que pudesse. Fiz bronzeamento artificial por muito tempo. Era baladeira, fumava tabaco, bebia álcool – ainda bebo -, como doces e açúcares, fiquei anos sem ir a uma dermatologista. Aos 27 anos, minha pele era tão manchada, que cheguei a querer tatuar a cara inteira com “cor da pele”. Vivia com camadas insanas de base que manchavam as roupas das pessoas e tinha vergonha de tomar um banho na casa do namorado ou do crush para não me verem sem maquiagem. Fora o desequilíbrio da pele, constantemente oleosa, com um brilho daqueles que não queremos. Minha testa era inteira vincada já naquela época. Por causa disso, já aderi ao botox. Sou alemã, hoje tenho a pele flácida, os colágenos sumiram há tempos, um bigodinho chinês e bochechas mais caídas que me incomodam.

O fato é que, atualmente, se a maioria das mulheres de minha idade não estivessem tão adeptas ao “rejuvenescer”, provavelmente uma boa parte estaria como eu, e o bigodinho, a bochechinha e as olheiras não me incomodariam tanto. O fato é que, como não me submeti a diversos tratamentos, acabo destoando de minha geração. E, sim, isso incomoda diversas vezes, mesmo tendo uma boa autoestima.

Como encarar e balancear esses sentimentos e escolhas? Afinal, estamos fazendo isso para nós ou para nos encaixarmos na sociedade atual?

 

Algumas experiências pessoais apavorantes com profissionais da “beleza”

Na busca por solucionar alguns dos meus incômodos, compartilho aqui 3 experiências pessoais bem significativas sobre o tema “rejuvenescer a qualquer custo”. Não apenas por trabalhar com isso, mas porque sou destas: pesquiso, agendo, marco, vou conversar e ver o que me propõem, se me escutam, entendem, ou querem apenas brincar, mexer com minha autoestima e faturar.

 

Caso 1 – As manchas do rosto

Vamos voltar um pouquinho no tempo, de quando eu tinha a pele toda manchada aos 27 anos. A primeira dermatologista que fui me indicou um tratamento com enormes quantidades de hidroquinona, que me geraram um efeito rebote e milhões de manchinhas brancas pelo rosto e pescoço, que mais pareciam uma micose. Um desastre.

Fui então a uma dermatologista de São Paulo que havia me sido recomendadíssima. Aparelhos mais modernos, tratamentos incríveis. Cheguei e ela tirou uma foto do meu rosto em uma luz verde (ou era roxa?) que mostrava todas as cagadas da pele. E como estava cagada! Com uma cara de pesar e drama, a doutora falou que eu havia acabado com minha pele e que era irreversível. A única coisa que talvez pudesse melhorar um pouquinho, era um tratamento caríssimo (muito caro mesmo!) dela e um creme manipulado por ela mesma, também a preço de ouro.

A dermatologista era antipática e arrogante, a recepcionista grosseira e arrogante. O plano de saúde que aparentemente aceitavam, não era bem assim, e saí sem o creme, sem o tratamento, xingando as devidas mulheres.

De lá para cá, são 20 anos com tratamentos mais naturais, muito protetor solar e muita, mas muita paciência, amor-próprio e dedicação de passar cremes, argilas, máscaras e afins várias vezes ao dia, todos os dias, completamente comprometida com a meta de sair de casa sem base. Conquistei meu sonho: sem base e sem manchas há alguns anos já. Yes! Agora só faltam as manchas senis, adiantadas pelo sol e genética, do colo, braços, mãos… mas aí vamos com calma e iniciar uma nova história para compartilhar.

 

Caso 2 – As olheiras, o bigode chinês e a flacidez

Depois de muito pesquisar, recebi a indicação de uma tal dentista em Florianópolis que fazia ótimas harmonizações faciais. Vi o trabalho dela no Instagram e resolvi marcar uma consulta de avaliação. Bom, comecei dizendo que não queria alterar o formato de meu rosto, que não queria o preenchimento das bochechas padrão, dos lábios, etc. Apenas queria um aspecto mais jovial e descansado de minha própria cara, mantendo meus traços e minhas características. Perguntei se queria ver uma foto minha um pouco mais jovem. Ela disse que não, que tinha entendido perfeitamente bem e que achava incrível essa minha postura.

Começamos os procedimentos e orçamentos. “Você tem que preencher aqui com ácido hialurônico, aqui com o bioestimulador de colágeno x e aqui com o y. Depois você volta porque preenchendo aqui, vai ter que preencher a região das têmporas, porque senão fica com um aspecto cadavérico. Preenchendo aqui fica com cara de modelo, porque a parte de baixo do rosto fica mais fina. Aí preenche aqui embaixo, aqui atrás, coloca os fios…” E depois de alguns meses, você estará tão diferente que, se pegar uma foto sua nova e outra de quando começou o tratamento, vai parecer uma outra pessoa.

Essa última parte ela obviamente não disse, mas fui fazendo o filminho na minha cabeça enquanto a profissional, que havia entendido perfeitamente bem que eu não queria alterar o meu rosto, me dizia. Fui lembrando também de tantas amigas e conhecidas que acompanhei nesse processo, que hoje estão, na minha opinião, completamente deformadas e quase irreconhecíveis.

A “bochecha-padrão”, os “lábios-padrão”, as sobrancelhas, o queixo… essas profissionais aprenderam teorias e técnicas e se esqueceram de olhar para a paciente e ver o que faz sentido para o rosto daquela pessoa. Não escutam o que a paciente deseja, apenas despejam panfletos de substâncias e procedimentos que vão garantir aquela “cara de modelo”. Você passará a ser mais desejada e feliz. Que medo!

Bom, meu rosto já é bem fino, não quero ter o rosto de ninguém, só o meu mesmo. E o que é “cara de modelo”? Que modelo? Qual é a referência de modelo, já que existem modelos de absolutamente todos os formatos e cores hoje em dia?

Os itens do meu orçamento eram gigantes, assim como as suas cifras. Ah, mas você pode parcelar. Desconto não consigo dar, porque os produtos estão caros, mas pode dividir eternamente. Os resultados duram alguns meses, aí você tem que voltar e dividir mais e sobrepor todas as parcelas de um rosto super harmônico!

Mais um local do qual saí dizendo algumas verdades e deixando de seguir aquele cafona perfil do Instagram.

 

Caso 3 – As manchas, flacidez e gordurinhas localizadas do corpo

Saindo do rosto e partindo para o corpinho. Sou magra, faço esportes, na real sou bem abençoada nesse quesito. Mas a gente sempre acha uma gordurinha em um local que não gostaríamos de ter ou queremos menos celulite e flacidez, além de uma bundinha mais redonda e arrebitada sem ter que se dedicar tanto na academia.

Uma clínica estética nova com os equipamentos e procedimentos mais avançados do mercado (olha eles aqui de novo), havia chegado a Florianópolis. Aproveitando alguns dos incômodos corporais, fui conhecer a clínica, até por uma questão de pesquisa para o treze:vinte:hub. Liguei e marquei uma consulta: “que sorte a sua a responsável estar disponível justamente nesse horário”. O marketing de oportunismo não tem limites.

Cheguei no meu horário para a tal consulta. Conversamos um pouco e, logo em seguida, um cardápio gigante, plastificado e com espiral me foi colocado à frente. Bom, então, gostaria que você me olhasse e me indicasse o que faz sentido para mim e para meu bolso, disse eu à gerente responsável.

Abaixando as calças, mas mantendo a dignidade, mostrei algumas coisinhas que me incomodavam e perguntei de alguns procedimentos que já havia escutado antes. Depois, mostrei meu colo, para saber se tinham algo para as manchas e rugas.

“Ah, se fizer isso, a gordura vai diminuir, mas a sua pele aqui está tãão flácida, que vai ficar pior e só vai funcionar se fizer x sessões desse tratamento também. Aí vai ficar perfeito, do jeito que você quer. Depois é só fazer a manutenção com esse outro aparelho, que só nós temos. Olha essa influencer aqui na clínica! Olha o bumbum dela.” Sorrisão de orgulho no rosto.

“Para o colo, não adianta você fazer só isso aqui também. Tá vendo aqui, tá faltando colágeno, precisamos fazer um preenchimento no colo todo antes de fazer esse outro, senão não vai ficar tão bom.”

“E estamos com uma promoção só até o final dessa semana. x% de desconto aqui, x% consigo nesse outro, nesse não consigo nada, mas posso  dar 1 sessão de depilação a laser em uma área pequena de sua escolha. Mas só até o final dessa semana.” Legal, e quantas sessões de depilação não necessárias para ter resultado? “Talvez 5 sessões, dependendo da espessura e cor de seu pelo”. Nossa, que presentão!

O que posso dizer dessa experiência? Que se eu estivesse em um dia ruim, de TPM, ou com minha autoestima baixa, eu contratava ali na hora, dividia tudo no cartão, sairia dali endividada ou chorando, achando que eu sou a pessoa mais feia e com o pior corpo do mundo!

 

Mas e se me incomoda realmente a ponto de mexer e abalar minha autoestima?

Experiências pessoais à parte, cada um sabe onde o calo aperta. Sei que algumas características de nosso rosto e corpo nos afetam a ponto de abalar a nossa autoestima e realmente nos prejudicar em nossos relacionamentos com o espelho, com o armário, com o mundo.

Não sou contra procedimentos, quero deixar claro. Quero ver mulheres felizes, cheias de segurança e autoestima, brilhando e conquistando o mundo. Mas sou contra a pasteurização de padrões, de profissionais que não respeitam outras mulheres por ganhos financeiros. Sou contra uma mulher achar que será mais feliz se tiver a cara da outra e não valorizar seus próprios traços e, principalmente, seu caráter, seus conhecimentos, suas conquistas, sua história.

Sou a favor da beleza livre, diversa, sem padrões, sem preconceitos. Sou a favor de termos uma beleza saudável e consciente, em que conseguimos identificar o que nosso rosto e corpo precisam apenas ao observá-los e tocá-los. Se precisam de melhor nutrição, hidratação, descanso, acolhimento, tonificação, mudanças e energização. Nosso corpo nos dá pistas diárias do que precisamos, do que passamos.

Tire um tempinho diário, de preferência de manhã, ao acordar, para se olhar no espelho com carinho e perceber de que tipo de produto ele precisa naquele dia. Se é dia para cara lavada ou uma bela maquiagem elaborada.  Seu corpo precisa de um óleo, de um hidratante? Precisa se hidratar por dentro e tomar mais água? Precisa de uma horinha a mais na academia para suar o álcool daquela farra boa da noite anterior?

Se nos mascaramos com procedimentos que alteram toda a estrutura de nosso corpo, como vamos identificar o que ele está nos dizendo? Como teremos saúde? Que tal pesquisar um pouco mais e dar uma chance para as técnicas de terapias integrativas?

 

As terapias integrativas e conhecimentos orientais como uma solução saudável e real

Mais um casinho pessoal! Recentemente percebi uma paralisia facial do lado direito do meu rosto, alterando o formato de meus lábios e a movimentação na fala. Fiquei assustada, mas só pude perceber porque não tenho preenchimentos. A descoberta e os tratamentos são incríveis. Senta, que é só mais uma historinha rápida, com alternativas saudáveis para cuidar do seu rosto e corpo.

Fui a uma acupunturista, especialista em Medicina Tradicional Chinesa, que identificou a paralisia no nervo trigêmeo. Ela me indicou uma osteopata, especialista em rosto e pescoço. Lá, a profissional me confirmou que o nervo trigêmeo havia sido afetado, e me perguntou sobre questões emocionais, estresse e sobre meus dentes… os dentes?

Sim, os dentes. Resumindo, o estresse me causou apertamento e ranger nos dentes, que me deu problemas na ATM, danificou os dentes de trás, onde tive que fazer implante. Resumo da história: toda essa questão dentária foi a causa da paralisia, alterando o formato e funcionamento do meu rosto. Se eu não estivesse atenta, poderia apenas fazer um preenchimento labial, puxar o rosto com fios e não resolver a causa de tudo. Além de agravar o problema a longo prazo.

Exercícios de yoga facial e o uso de gua sha complementam o tratamento, que, de quebra, também ajudam na luminosidade e tonificação do rosto. Que tal?

Antes de procurar uma “harmonização facial”, que tal procurar uma acupunturista, uma yoga facial, uma osteopata, uma esteticista que faça massagens faciais, faça o uso do gua sha… Ou quem sabe seja apenas o caso de se olhar no espelho com um pouquinho mais de carinho e amor?

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