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Não faço por me amar, faço por me odiar

Quando se fala em beleza, é interessante entender que esse conceito se fundamenta no olhar de cada pessoa sobre o mundo. Partindo do princípio de que vivemos em sociedade, em alguns momentos o olhar do outro vai influenciar o nosso. E é esperado que isso aconteça, mas não é interessante que isso se torne indispensável para as nossas escolhas de vida. A opinião do outro fala mais sobre o outro do que sobre a gente e entender como o outro pensa e se relaciona com o mundo é legal, mas entender como você se relaciona com o mundo é imprescindível. E é sobre isso que estamos falando.

Esses dias eu achei uma foto 3×4 antiga. Passei um bom tempo olhando para ela e pensei que muita coisa mudou na minha vida. O cabelo alisado à base de químicas fortes ainda mostrava o peso que a opinião das pessoas tinha nas minhas decisões, já as frequentes roupas de manga exalavam a vergonha e o ódio que eu nutri durante anos pelo meu próprio corpo. Mas o que me deixou mais pensativa, foi a expressão que o meu rosto trazia, uma tristeza que transpassava pelo olhar. Como uma foto minúscula podia me dizer tanto sobre uma época da minha vida que nem fazia tanto tempo assim? 

A verdade é que eu ando pensando sobre quem eu sou, quem eu fui e quem eu estou me tornando e sinto que o processo de empoderamento corporal acontece de forma gradativa, de maneira que cada parte desse nosso companheiro passa a fazer sentido de tê-la conosco, e que ao compreender as delícias de ser quem se é, tudo o que fazemos pelo nosso corpo também passa a merecer um novo olhar. 

Durante muito tempo eu frequentava a academia como se aquele ambiente fosse me salvar daquela prisão que era ter um corpo gordo, por isso eu ia com a cara fechada, sem a mínima vontade de treinar e arrumava várias desculpas para não me exercitar. Tudo que envolvia beleza e estética trazia consigo a obrigação de me deixar bonita, que tinha como sinônimo chegar o mais próximo do padrão, e quando eu falo padrão, lê-se magra, loira, traços mais finos no rosto, ou seja, algo que só aconteceria com muitos procedimentos estéticos invasivos e mesmo assim, não traria naturalidade. 

Como já disse anteriormente, o processo de empoderamento acontece gradativamente e comigo não foi diferente. O fato é que a chavinha virou quando eu percebi que buscava beleza em algo que não era real pra mim, mas que principalmente eu recorria a esses produtos, exercícios e roupas porque eu me odiava. E esse, definitivamente, não deve ser o parâmetro para as nossas escolhas, principalmente, as que se relacionam com o nosso corpo. 

Pode até parecer clichê, mas a verdade é que o corpo é a nossa primeira casa, é o que nos permite vivenciar todas as experiências, sentir o cheiro, sabor e o toque. E é com ele que podemos e devemos criar uma relação de amor e cumplicidade. A primeira e mais importante relação deve ser essa. É por amor a ele que devemos escolher um creme que não agrida a nossa pele, é por amor a ele que devemos escolher produtos que acolham cada parte desse templo que é o nosso corpo. 

Que possamos cada vez mais desenvolver práticas que abracem cada curva, ruga, marca que o tempo fez na nossa casa. Que possamos manter a nossa casa limpa, bem cuidada e decorada. Mas tudo isso não porque iremos receber visita, mas porque amamos estar em nossa própria companhia e, por isso, merecemos os melhores cuidados, os melhores produtos e as melhores sensações. 

 

: Jayane Souza é jornalista e produtora de conteúdo Body Positive. Mulher gorda, parda e de cabelos cacheados, ativista contra a gordofobia.

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