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Envelhecimento humano: é possível não perder a ternura nos dias atuais?

Etarismo. Idadismo. Gerontofobia. Essas são algumas das ‘novas’ palavras associadas ao universo das pessoas ‘velhas’. Aliás, esse último, um termo que se tornou pejorativo por seu mau uso nas sociedades e culturas jovencêntricas. Hoje, a referência mais aceita para tratar quem está na linha de frente do envelhecimento humano é ‘pessoa idosa’.  

A discriminação contra pessoas simplesmente por serem mais velhas é o idadismo (ou ageismo, termo aportuguesado do inglês “ageism”). O etarismo faz referência ao preconceito etário, a uma idade específica ou a grupos etários, mas que também afeta as pessoas mais velhas – um exemplo são as vagas de trabalho que excluem pessoas de mais idade pelo simples fato de serem percebidas como lentas, ultrapassadas… velhas. 

Já a gerontofobia é o medo extremo e descontrolado do envelhecimento, ou uma rejeição desmedida a tudo relacionado à velhice.

Outras expressões e gírias procuram categorizar a geração nascida até 1972, que hoje se encontra na faixa etária 50+. Tio/tia (quem não se lembra do tio Sukita da propaganda de uma marca de refrigerante?), coroa, meia idade, terceira idade, melhor idade, pessoa madura, envelhescente. 

Ou ainda, em termos mercadológicos, temos as classificações baby boomers (para os nascidos entre 1940 e 1965 na Europa e América do Norte). No Brasil ganharam a denominação Geração Invisível (45 a 54 anos) e Geração Prateada (55+).

 

Quando começa o envelhecimento humano?

A velhice tem idade? Biologicamente falando, ficamos mais velhos a cada segundo, do momento que viemos ao mundo. Exceto, claro, por Benjamin Button, personagem do aclamado romance de Scott Fitzgerald, que subverteu essa lógica. Nela, um homem nasce com oitenta e poucos anos e rejuvenesce a cada dia que passa. A história, que foi levada às telas do cinema pelo diretor David Fincher, com Brad Pitt no papel principal, fez imenso sucesso.

Do ponto de vista evolutivo, o corpo humano atinge a maturidade aos 25 anos e, a partir daí, inicia-se o processo de oxidação do organismo e a perda progressiva de minerais e vitaminas. De acordo com um estudo da Universidade da Virgínia (EUA), por volta dos 27 anos as sinapses entre os neurônios em nosso cérebro já começam a decair, afetando habilidades como a inteligência espacial. 

Cronologicamente, é comum sugerirem consultas com um geriatra, médico especializado em envelhecimento humano, a partir dos 35-40 anos, para tratamento preventivo das doenças e limitações que vêm com o passar dos anos. 

A população do Brasil, assim como a mundial, está envelhecendo em ritmo maior do que o nascimento de crianças. Já temos 35 milhões de pessoas com mais de 60 anos no país. Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) alertam que, em 2050, uma em cada seis pessoas no mundo terá mais de 65 anos. O número de pessoas 80+ deverá triplicar, passando de 143 milhões em 2019 para 426 milhões em 2050.

Mas a velhice tem idade. No Estatuto do Idoso brasileiro, ela começa aos 60 anos.

 

O gueto sociocultural idadista

Contudo, a pressão da cultura centrada na juventude colocou a velhice em posição inferior, moralmente questionável, e pessoas a partir dos 50 anos já sentem desvantagens.

O ambiente capitalista pós-industrial, e o modo de vida em sociedade cada vez mais urbano, valoriza os indivíduos de acordo com a sua produtividade e imagem, contribuindo para a segregação e invisibilidade das pessoas maduras na sociedade, nas relações interpessoais e no mercado de trabalho.

Diante de diferenças culturais e socioeconômicas gritantes, implica, necessariamente, também falar em diversidade e gênero. O envelhecimento da mulher difere do homem por uma série de fatores biológicos e cronológicos. Mas fica ainda mais amplificada sob a ótica sociocultural. 

Para as mulheres, o fardo mais pesado é a associação do padrão de beleza que remete à jovialidade. Na medida em que o corpo feminino envelhece e não pode mais gerar vidas, torna-se dispensável e deixa de ser objeto de desejo. A sedução da mulher está culturalmente e comercialmente atrelada à sua aparência, idade e capacidade de reprodução. 

A questão de gênero frente ao envelhecimento apresenta o homem idoso de forma positiva, no papel de coroa atraente, homem de sucesso, vovô sarado, muito mais facilmente do que atribui a ele características negativas.

 

Fato: estamos vivendo mais tempo e envelhecendo mais tarde

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2020 a expectativa de vida no Brasil é de 76,8 anos. Para os nascidos em 2019, a expectativa era viver, em média, até 76,6 anos. Em cinco anos, a expectativa de vida subiu 1,3 ano, enquanto em dez anos houve um crescimento de 3,3 anos.

Como vemos, a velhice se prolongou mas ainda não encontrou seu lugar na sociedade.

A longevidade é uma consequência da qualidade de vida, acesso a acompanhamento  médico, educação, alimentação, cultura e lazer. Hoje, pessoas idosas têm mais liberdade, mais saúde, mais autonomia, maior independência, são mais ativas e cheias de vitalidade. 

Mas ainda permanecem padrões de condutas e práticas sociais estruturais que pressionam diariamente essas pessoas a se esconderem, a rejeitarem sua aparência, seu corpo acima ou abaixo do peso, a flacidez da pele, a face com rugas. A beleza só é valorizada se possuir aspecto juvenil. 

O mito da juventude eterna parece cada dia mais próximo de quem pode pagar por ele. O elixir antiidade vem em frascos, potes, agulhas, tubos de sucção, lasers, lixas de diamantes, instrumentos de corte afiados e fios cirúrgicos. 

Menos invasivas, as terapias alternativas integrativas adentraram o espectro estético, de saúde e bem-estar, como a acupuntura, massagens, oleação, cremes, e técnicas como o yoga facial e o yoga hormonal, que prometem tratar a flacidez e promover o rejuvenescimento por meio da eliminação do estresse, desobstrução de energia sutil, drenagem linfática, entre outros.

Não existe nada errado em buscar meios para melhorar a aparência e a boa-forma, desde que isso seja feito com responsabilidade, sem a pressão externa que leva pessoas a exageros e à gerontofobia. Não abrir mão da experiência e da vitalidade para reduzir o público idoso a uma caricatura de pessoa que não se desenvolveu emocionalmente e quer imitar os mais jovens.

Tudo contra a ideia de que o único jeito de envelhecer bem é não envelhecer. 

 

Um novo olhar sobre o envelhecimento humano 

Uma pesquisa da Organização Mundial da Saúde (OMS) revelou que 60% das pessoas têm opiniões negativas sobre a velhice. A gerontofobia é como uma pandemia silenciosa que contamina jovens e idosos. 

No ocidente, de modo geral, onde as sociedades encaram a vida como uma sucessão de períodos, envelhecer é o declínio. 

“A pessoa idosa é alguém; e um alguém não tem vontades, desejos, sofrimentos e saudades? Quando se é velho ou velha, não há querer? O corpo envelhecido não deseja ser tocado? Há um tempo certo para se ter um destino?” questiona a sempre brilhante Clarice Lispector no conto ‘A procura de uma dignidade’.

O novo maduro é ativo, consideravelmente saudável, e terá mais tempo de vida para realizações, trabalhos e projetos. Muitos já entraram no mundo digital, têm acesso a facilidades médicas e tratamentos, aposentadoria e fonte de renda de investimentos, são empreendedores, gostam de aprender e estudar. 

As pessoas maduras têm soft skills que foram desenvolvidas com o passar do tempo, como mais paciência, pensamento crítico, capacidade maior de empatia no trabalho em grupo, bom senso para a tomada de decisão.

A bandeira da diversidade etária já começou a ser levantada. E como já era de se esperar, vem sendo encabeçada pelas mulheres, protagonistas que são de grandes transformações sociais na história humana. 

Sexualidade, desejo, equidade de direitos, liberdade econômica e de expressão, as mulheres maduras vêm dando voz às vontades que o tempo não apaga, forçando a sociedade a olhar para certas convenções não como verdades absolutas, mas como pactos sociais passíveis de ressignificação.

Aliás, é um público bem opinativo. São críticas dos estereótipos femininos mas fiéis e dedicadas às pessoas, marcas e serviços que as tratam com respeito e dignidade.

A resistência a qualquer custo ao processo natural e saudável do envelhecimento deve ser a nova bandeira social de ativistas pela beleza livre. Ninguém deve se sentir pressionado ou intimidado a manipular sua identidade física e emocional para aumentar suas chances de aceitação social. 

Envelhecer é natural. E pode ser bom, dependendo da autoestima e autoaceitação de quem entra na segunda metade da vida. Parafraseando a canção de Caetano Veloso, “só não vai (envelhecer) quem já morreu”. 

 

5 perfis de mulheres que falam sobre a beleza da maturidade

Cléia Klouri 

@hype50+ e @silvermakers             

Especialista em comunicação voltada para a Economia Prateada. É sócia da consultoria Hype 50+, que tem como propósito dar voz, vez e valor ao público com mais de 50 anos. Fundadora do Silver Makers, hub de inteligência em marketing de influência com protagonistas maduros. Integrante do Movimento Atualiza! que desenvolve ações de combate ao etarismo, entre outras tantas atividades.

 

Iza Dezon 

@dezon____ 

Tagarela assumida, formada em Styling no Instituto Marangoni de Milão, tem um olhar voltado para inovação e projeção de futuro. Em 2019, sua empresa de consultoria estratégica e criativa lançou o Tsunami 60+, estudo pioneiro no Brasil, com importantes indicativos de tendências para o mercado maduro na moda, comportamento e beleza.

 

Cris Guerra 

@eucrisguerra

Escritora, palestrante, colunista e produtora de conteúdo, aborda o amadurecimento, de frente e com coragem, “em um país onde envelhecer ainda soa como um crime, principalmente para as mulheres”

 

Camila Faus e Fê Guerreiro

@she______t  

O perfil SHEt_alks é um lugar onde a idade dos “enta” rima com “experimenta”. Explora a potência da mulher madura e a desconstrução de preconceitos. Comandado por Camila e Fê, que debatem de forma séria e direta, mas também com humor, assuntos como envelhecimento, beleza, relacionamentos, prazer feminino, maternidade, menopausa, carreira, sexo. Sem tabu, nem regras.

 

Adri Coelho Silva 

@vivaacoroa

Influencer madura, colunista da Vogue Brasil, palestrante, Adri criou o Viva a Coroa, um canal de informação, diversão, sororidade e entretenimento para mulheres 50+.  

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